Um adulto, dez ou quinze anos após o seu último diploma, hesita perante um formulário de inscrição numa formação. Não é o programa que o detém, nem sequer o custo das aulas. É uma vozinha que repete que é tarde de mais, que perdeu o jeito, que não acompanhará o ritmo no meio de estudantes mais jovens e visivelmente mais treinados. Esta hesitação, tão comum que se torna quase universal, merece ser encarada de frente em vez de sofrida em silêncio.
Um obstáculo mais psicológico do que prático
Um número basta para repor as coisas em perspetiva. A dúvida sobre si mesmo ultrapassa mesmo a questão do custo entre os obstáculos citados pelos adultos que consideram retomar os estudos, com quase metade deles a colocá-la no topo dos seus receios.
Este resultado inverte uma intuição generalizada. Imagina-se espontaneamente que o dinheiro ou o tempo disponível são os verdadeiros travões a uma retoma dos estudos. A realidade é mais íntima, e num certo sentido mais encorajadora: o obstáculo principal não é exterior, é interior, o que significa que pode ser trabalhado e deslocado, ao contrário de uma restrição puramente material.
O que realmente bloqueia
Esta dúvida sobre si mesmo assume formas precisas. A convicção de ter perdido o jeito, de já não saber aprender como antes. O receio de destoar no meio de estudantes mais jovens, visivelmente mais à vontade com os códigos escolares recentes. O medo surdo, raramente formulado em voz alta, de falhar depois de tantos anos afastado das salas de aula.
Estes medos dizem-se disposicionais, por oposição aos obstáculos puramente práticos como os horários, o dinheiro ou a logística do quotidiano. E é precisamente esta categoria de medos, interiores e difusos, que se revela estatisticamente a mais decisiva no abandono de um projeto de retoma, muito antes das restrições materiais que espontaneamente se julgam determinantes.
As competências largamente subestimadas
Eis onde a perspetiva merece ser invertida. Um adulto que considera retomar os estudos já demonstrou, sem lhe chamar assim, uma capacidade de perseverança considerável. Gerir um emprego, uma família, imprevistos quotidianos, malabarizar obrigações contraditórias sem nunca largar tudo, são competências diretamente transferíveis para o esforço que uma formação exige.
Essa resistência não desaparece subitamente perante uma aula magistral ou um trabalho a entregar. Transpõe-se, quase intacta, assim que se aceita reconhecê-la pelo que é: uma prova já adquirida da capacidade de aguentar ao longo do tempo, bem mais sólida do que a maioria dos estudantes mais jovens ainda teve oportunidade de demonstrar.
Recuperar um método de trabalho
Após uma longa interrupção, os reflexos de trabalho não têm de ser inteiramente reinventados, apenas reconstruídos. Tirar apontamentos úteis, digerir uma aula densa, sintetizar uma leitura académica, são automatismos que voltam com a prática, mais depressa do que se receia à primeira vista.
É precisamente nesta fase de reconstrução que retrabalhar um texto académico que se teme já não saber ler se torna particularmente útil. Um acompanhamento para reprocessar a matéria, em vez de uma imposição de reaprender tudo sozinho de uma vez, permite recuperar o pé progressivamente, sem que a primeira semana de aulas pareça um muro intransponível.
A parte mais difícil já está feita
Um ponto merece ser sublinhado com insistência. A decisão de se inscrever, o próprio ato de retomar após anos de ausência, constitui estatisticamente a etapa mais difícil de todo o percurso. Reunir os documentos, preencher o formulário, enviar a candidatura: estes gestos, aparentemente administrativos, representam na realidade a superação do obstáculo psicológico mais alto de todo o processo.
Uma vez ultrapassado este marco, o resto constrói-se passo a passo, sobre bases nitidamente mais sólidas do que se imagina antes de se voltar a isso. O resto do caminho, por mais exigente que seja, já não exige o mesmo salto de coragem da decisão inicial.
Voltemos a esse adulto hesitante perante o formulário de inscrição. A sua vozinha interior não diz nada de verdadeiro sobre as suas capacidades reais de ser bem-sucedido. Diz apenas que um obstáculo bem identificado, largamente partilhado por milhares de outros adultos na mesma situação, e largamente superável uma vez nomeado, se ergue entre ele e uma decisão já tomada na prática.